terça-feira, 9 de novembro de 2010

A MISSIVA

Hoje poderia ser o ontem mas, foi o hoje, numa correria louca e desenfreada para chegar a casa onde devia estar há algumas horas, as obrigações chamavam-me, já me tinha demorado de mais a beber um café, aquele que eu não dispenso que, bebo com deleite como se fosse um néctar vindo dos mananciais celeste, costumo chamar-lhe a minha “bíblia sagrada” tal cálice se eleva nos altares dos meus lábios saboreando o líquido escuro que correm pelas minhas goelas degustando o seu paladar. Mas não foi o café que me trouxe a este recanto, mas sim ao abrir a minha porta e olhar para o chão tinha uma carta, novidade não era a carta no chão, o carteiro faz como entende, o meu espanto é que a carta era dirigida a um morto e, por cima de um banco onde a conta tinha sido fechado por post mortis há seis anos, na minha indignação na minha revolta revejo o nome de quem nunca poderei esquecer aquele que foi o meu eu num inacabado emocional que se desloca em derivas retumbantes em busca do meu espaço sideral, a minha vida retrocedeu o nome aquele que eu evito pronunciar mesmo no desespero, ele foi e eu fiquei a revolver as mágoas que despertou aquele subscrito, não pela missiva em si mas pelo seu endereço e, para mais dum serviço que presta e move cidadãos nos seu dia a dia que controla o seus euros nos investimentos, a revolta ainda foi maior ao constatar ao dependência bancária que conhecendo-me como me conheço, agarro no telefone e vai dai “sim e exponho a situação” resposta fria estilo Americano, penso que treino… não é fulano então é a esposa, esclareço que não ouviram o que eu disse, que devolvia a missiva, insiste-se do outro lado mas abra pode ter interesse para si, salta-me a tampa e, nesse estante desligo o telefone e escrevo no simples envelope. Este me trouxe lembranças de dor de tristeza e de um futuro que acabou há algumas luas anuais, provocando-me uma dor que pensei que já estava escondida num recanto qualquer da memória e, sem repensar porque nesta hora penso, o ferir o cidadão comum, então que comam também as letras escritas por mim com dor, com saudade e, acima com raiva de teres partido sem me levares ou te relembrares que eu poderia ir primeiro, sem um adeus, sem um afago e no meio da estupidez da morte tiveste uma morte feliz morreste sem dor ou se a tiveste foi minimizada por segundos e, nós que ficamos aqui nesta dor de abandono ao virarmo-nos todos para um recanto, os nosso solitários, procurando um refugio, o meu, o nosso e o querer levar a vida em frente, aparece algo que destabiliza, eu então também destabilizo mais, num aparvalhar de escrita coloquei devolver ao remetente com o seguinte: “procurar o remetente no cemitério da conchada em Coimbra desde o dia 18-11-2004”. Espero que não volte a acontecer porque nem as finanças me mandam uma única carta em nome de quem partiu, pois tenho consciência que tratei da papelada toda e não mais existirem melindres nesta vida, mal arrumada e dorida. Sem palavras, quero seguir em frente, mas os obstáculos surgem em cada esquina em cada rua em cada mensagem…

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