sábado, 11 de julho de 2009

Alucinação

“Diz-se que ocorre uma alucinação negativa sempre que um indivíduo é incapaz de percepcionar algo, ou alguma coisa que normalmente percepcionaria com os seus cinco sentidos” Desde há vários anos que a classe política parece vir a divergir das necessidades reais da sociedade portuguesa. Esta fractura é tão marcada que actualmente é como se o cidadão comum, no essencial, vive desligado da classe política nos seus desejos, problemas e aspirações. Para o português médio, é como se os políticos tivessem construído um mundo virtual onde se movimentam sem qualquer ligação com o mundo real e, o cidadão comum tem de viver. Existe uma voz no silêncio... Como qualquer pessoa sensata o sabe. Quando um filho deixa de comunicar com os pais, é seguramente um sinal de problemas. Quando um conjugue deixa de comunicar com o outro é sinal que o casamento começou a naufragar. Quando um comerciante percebe que os seus clientes deixaram de ir comprar na sua loja, está a caminho da falência. O preocupante é que não é assim, mas cada vez mais equiparado ao sistema democrático ocidental. As eleições mais uma vez revelam esta voz silenciosa. Cada vez mais revelam um afastamento dos cidadãos dos seus sistemas de governo, logo dos seus governantes. Os políticos insistem em ignorar este rugido silencioso que nasce das entranhas da nossa civilização. Os resultados eleitorais revelam uma outra questão, ainda mais grave e que está na origem do afastamento entre os políticos/governantes e os cidadãos. O objectivo do exercício da política é a acção governativa. O objectivo da acção governativa é de facto o exercício do Poder. Este Poder é exercido em benefício da comunidade. Nas sociedades mais “primitivas”, frequentemente o poder é dividido entre dois grupos de indivíduos por um lado aqueles que na comunidade são considerados os mais sábios e por outro aqueles que possuem maior força física ou capacidade de a exercer, (com frequência ambos coexistem em estruturas sociais paralelas e representativas). Num universo virtual, uma espécie de twilight zone política e social. Isto porque quem o elegeu não foi quem votou mas sim quem não votou. Os recentes casos vindos a lume na comunicação social sobre suspeitas de corrupção não ajudam. Fica a percepção que a cedência a interesses obscuros, não claros para o cidadão normal, tem levado às dificuldades económicas, e que a classe política assim que se encontra no poder busca os seus interesses em vez dos interesses da comunidade, deixando de dar respostas às necessidades do país real. Fica a impressão que o neoliberalismo selvagem a que assistimos actualmente faz-nos caminhar em direcção ao suicídio civilizacional. Mais uma vez não nos esqueçamos que alguns dos grandes ditadores do século XX/XXI nasceram de democracias cujos governantes divergiram na prática das necessidades da maioria dos seus governados. Perderam assim a sua legitimidade social; de certa forma, esses ditadores nasceram precisamente do silêncio e do “desinteresse” de largas franjas da população. Ao continuarmos a recusar olhar para a realidade do cidadão que não vota estamos simplesmente a Alucinar, mas não uma alucinação qualquer, estamos a viver colectivamente uma Alucinação Negativa.

1 comentário:

  1. Ao continuarmos a recusar olhar para a realidade do cidadão que não vota estamos simplesmente a Alucinar, mas não uma alucinação qualquer, estamos a viver colectivamente uma Alucinação Negativa.

    Inteiramente de acordo: O IMPACTO DA ABSTENÇÃO SÓ OCORRE NA NOITE ELEITORAL, RAPIDAMENTE ESQUECEM. ALUCINAM-SE DEIXANDO COM ISSO O REGIME CAIR NA ESTERQUEIRA EM QUE ESTÁ... parabéns pela reflexão actualizadissima

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